quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Secularismo em todos os lugares




Você já ouviu a palavra antes. É como a escuridão sorrateira que vai se espalhando pela nossa cultura. Muitas vezes ouvimos esta palavra usada como um simples rótulo. Escola “secular”, música “secular”, sociedade “secular”, frequentemente usado sem muita explicação. A preocupação com o secularismo, na verdadeira acepção da palavra, tem crescido somente nos últimos anos e essa preocupação tem crescido por várias razões, incluindo decisões da Suprema Corte, mudanças nas opiniões dos jovens e mudanças na cultura pop.
Mas o que, exatamente, é secularismo? É uma ideologia que promove a ausência de qualquer obrigação relacionada à autoridade ou crença em Deus. É uma forma de ver o mundo onde se reconhece apenas o aqui e o agora, e se o mundo espiritual existe, isso não é uma preocupação para o secularismo, assim, podemos viver como se esse mundo espiritual não existisse. Outra questão é que, em contraste com o forte ateísmo de certas ideologias, como o novo ateísmo ou o comunismo, o secularismo é uma forma mais sutil de ateísmo, nem sempre exigindo que declaremos "não há Deus". Isso implica em que, simplesmente, Deus não é relevante para a discussão - nunca. Em suas linhas ainda mais perniciosas, o secularismo implica em que Deus seria, na realidade, destrutivo para a sociedade.
O secularismo, por vezes, pode ser óbvio. Por exemplo, a decisão da Suprema Corte no caso “Obergefell v. Hodges”, legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo nos Estados Unidos. Por essa decisão, o tribunal essencialmente assumiu o direito de definir o casamento, no entanto, as instituições humanas não têm esse direito, esse é um direito que pertence somente a Deus (Gn 2.24; Ef 5. 21-33). Uma vez que o secularismo não reconhece Deus, o homem joga com o nome de Deus para servir aos propósitos de suas próprias imaginações morais. Paulo nos diz que devemos esperar por tais coisas quando o homem abandona a Deus (Rm 1.28).
A decisão, no caso “Obergefell v. Hodges”, não ocorreu, é claro, no vácuo.  A revolução sexual dos anos 1960 e 1970 marcou uma rebelião contra a ética sexual cristã. Promoveu a aceitação de sexo e expressão sexual fora do casamento, tanto em nossas vidas pessoais quanto no entretenimento. O tumulto daqueles anos foi acompanhado por uma outra grande decisão da Suprema Corte, em 1973: o caso “Roe v. Wade”, quando o aborto foi legalizado e marcou uma grande mudança de visão na sociedade, que passou da cosmovisão cristã para o secularismo. Essa foi uma decisão consciente em escolher a morte e a vontade do homem em detrimento da vida e da vontade de Deus. “Obergefell” foi apenas um “tiro de misericórdia” em uma reviravolta que vem ocorrendo há décadas.
Outro lugar óbvio, sobre o qual o secularismo tem avançado, é em nosso sistema de educação. A promoção do relativismo moral nas salas de aula contribui para o relativismo moral geral entre os estudantes. A eliminação, nos livros didáticos, de qualquer referência a um Criador, leva ao abandono até mesmo o conceito de Deus.
O secularismo tem surgido, ainda, de várias outras formas em nossa cultura. A aceitação dominante da expressão sexual extravagante, dos movimentos de “direito à morte” e da animosidade geral “em praça pública” em relação às visões cristãs ortodoxas, indica que o secularismo está em toda parte à nossa volta.
Faz sentido que os cristãos reconheçam esses exemplos de secularismo como significativos e procurem formas de resistir a eles. A escuridão sorrateira que vai se espalhando em nossa cultura deve ser motivo de preocupação. Entretanto muitas vezes pensamos no secularismo como algo que existe "lá fora" em vez de algo próximo - algo que pode estar até mesmo em nossos corações. O secularismo também é evidente no materialismo de nossa cultura, em seu desprezo pelo mundo espiritual e no efeito da revolução sexual em nossas vidas. Até mesmo os cristãos podem viver como se as suposições seculares fossem verdadeiras.
O secularismo, sendo um ateísmo sutil, reconhece o mundo material como o único mundo existente, não há mundo espiritual ou vida após a morte, em tal mundo, o prazer material é o bem maior. Tal mentalidade se presta então, a adorar o dinheiro como deus, pois que melhor maneira pode haver para adquirir prazer material do que dinheiro? Essa mentalidade materialista é especialmente aparente na TV, no rádio, enquanto navegamos na Internet, e até mesmo quando dirigimos pela estrada. Comerciais, programas de TV, a “cultura de celebridades” e outdoors incessantemente exigem que compremos algo - qualquer coisa - para nos fazer felizes. Muitas vezes, até mesmo os cristãos são levados, por esses meios, a acreditar que coisas materiais preencherão o vazio em suas vidas. Essas "coisas" nos farão felizes. Se nossos pensamentos estão constantemente em nosso dinheiro, o que comprar e quando comprar, provavelmente já adotamos o modo de pensar de nossa cultura secular. Se nossa alegria está ligada exclusivamente à nossa próxima compra, não estamos adorando a Deus. Pelo contrário, abandonamos a Deus e colocamos um ídolo secular em seu lugar.
O secularismo tem, ainda, entrado em nosso pensamento de outras maneiras sutis. Devido nossa mentalidade materialista, muitos de nós ignoramos ou esquecemos as realidades do mundo espiritual. Paulo nos diz, em Efésios 6, que nossa luta não é fundamentalmente contra os poderes deste mundo, mas contra as "forças espirituais do mal" (v.12). O cristianismo é uma religião que acredita no sobrenatural. Ou seja, acreditamos em um mundo além deste mundo. Nós acreditamos em anjos e demônios, acreditamos no céu e no inferno. Acreditamos que Deus, um ser espiritual, criou os céus e a terra. Se a perda de nossos recursos materiais nos causa total desesperança, por acreditar que não nos resta mais nada, é porque nos esquecemos do Senhor. Se nossa vida de oração é inexistente ou meramente uma obrigação, entendemos mal nossa situação espiritual. Em vez disso, ter uma mentalidade bíblica nos dará uma perspectiva eterna sobre essa vida, permitindo-nos afirmar como Paulo que “Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor” (Rm 14.8). Isso nos levará a orar sem cessar, dando graças em todas as circunstâncias (1Ts 5.16-18), pois sabemos que nosso Senhor já conquistou as forças espirituais ordenadas contra nós.
O secularismo também tem nos levado na esteira da revolução sexual. O vício em pornografia é um problema com o qual muitos cristãos lutam. Basta observar que, o simples fato de assistir ao Netflix ou navegar na Internet requer, muitas vezes, que utilizemos uma “armadura” para podermos enfrentar os desafios de imagens sexualmente tentadoras que nos são apresentadas. Nós geralmente não honramos nossos casamentos como deveríamos. Muitas vezes, inconscientemente, aceitamos o que o entretenimento nos diz a respeito do que homens e mulheres devem ser. Se estamos simplesmente absorvendo as definições de nossa cultura secular de masculinidade e feminilidade, em vez de buscar as Escrituras, o secularismo já se infiltrou em nossos corações. Se nos tornamos insensíveis a imagens sexualmente explícitas ou expomos nossa família a entretenimento inadequado, é provável que o secularismo esteja nos moldando mais do que as Escrituras. Em tal cultura, a Palavra precisa ser verdadeiramente lâmpada para nossos pés e luz para nossos caminhos (Sl 119.105).
Existem, é claro, outras maneiras pelas quais o secularismo se manifesta. As mudanças óbvias de nossa cultura ao longo dos últimos cinquenta anos têm sido chocantes para os cristãos que viam, na sociedade em geral, a preservação da mentalidade dos chamados valores judaico-cristãos. No entanto, as mudanças não devem ser motivo de desespero.
Por quê? As razões são várias. Primeiro, o secularismo não é a dissolução do cristianismo. Deus prometeu que Sua Palavra não retornará a Ele vazia e que as portas do inferno não prevalecerão contra Sua igreja (Is 55.11; Mt 16.18). Além disso, o Novo Testamento não apenas prevê, mas assume o fato que os cristãos serão perseguidos. (1Jo 3.13). Em vez de representar a dissolução do cristianismo, o secularismo representa mais a dissolução do cristianismo nominal. Deus não está falhando na sociedade, e Ele também não está falhando em sua igreja. Ele permanece no controle como sempre.
Em segundo lugar, o status “assumido como certo”, do cristianismo, tem mudado por causa do declínio do cristianismo nominal. Mais e mais jovens estão se identificando como “espirituais, mas não religiosos". Embora isso possa parecer negativo, na verdade pode ser positivo, pois sem os impedimentos do cristianismo meramente nominal, há mais oportunidades para as pessoas ouvirem a verdadeira mensagem do evangelho. Por exemplo, “mal-entendidos” do evangelho são comuns entre pessoas nominalmente cristãs. Elas frequentemente entendem o evangelho promovendo uma salvação baseada em obras, testemunhar para tais indivíduos requer um passo extra na explicação do evangelho. Além disso, os jovens que cresceram em um lar legalista e nominalmente cristão, mas abandonaram o legalismo de seus pais, muitas vezes não querem nada com o cristianismo. Eles identificam o cristianismo com o legalismo. À medida que o cristianismo nominal desaparece, tais obstáculos ao evangelho são removidos.
É claro que sempre dependemos da obra do Espírito Santo na vida das pessoas para regenerar seus corações. Nunca devemos parar de orar para que Deus salve, mas isso não anula o fato de que um contexto nominalmente cristão frequentemente apresenta um solo difícil para a evangelização. À medida que nossa cultura abandona o cristianismo nominal, nós nos tornamos mais parecidos com Paulo entre os atenienses, que perguntaram: “Poderemos saber que nova doutrina é essa que ensinas?” (At 17.19).
Nós não sabemos o que o futuro nos reserva. Pode ser que Deus promova um grande reavivamento. Pode ser que nossa cultura simplesmente retorne, em grande parte, a uma visão nominalmente cristã das coisas. Pode ser que nossa cultura se torne mais e mais secular. Aconteça o que acontecer, sabemos onde está a nossa esperança. Não é no aqui e no agora, como o secularismo quer nos fazer acreditar. Nossa esperança está na segunda vinda de Cristo, e embora seja tentador abandonar a esperança, devemos nos lembrar de que estamos servindo ao seu reino aqui na terra, enquanto aguardamos sua vinda. Somos forasteiros aqui.
Os Estados Unidos não são o reino de Deus. Nem o Império Romano o foi. Os primeiros cristãos sabiam que o reino de Cristo não é deste mundo. Essa é a razão pela qual o Apocalipse não é um manifesto político terreno ou um manual de instruções exclusivamente dedicado a mudar a cultura romana para Cristo (embora os cristãos, ao servirem o reino de Deus, mudassem a cultura). Pelo contrário, o Apocalipse é a conclusão adequada para a Bíblia, pois é a conclusão adequada para esta era. Mostra-nos a vinda de Cristo do céu em toda a Sua glória para consumação do Seu reino aqui na terra. O “aqui e agora” se tornam em “para sempre”. Jesus Cristo certamente voltará algum dia. Ele trará o céu para a terra (Ap 21. 2). Enquanto isso não acontece, dizemos como o salmista: “Aguardo o Senhor, a minha alma o aguarda; eu espero na sua palavra”. (Sl 130. 5).

Tradução: Paulo Reiss Junior.
Revisão: Filipe Castelo Branco.

domingo, 6 de maio de 2018

Indicação de livro: Sob os céus da Escócia


Por Matias Borba


A leitura de bons livros é sempre enriquecedor a quem deseja conhecer e aprofundar seus conhecimentos sobre os mais diversos assuntos. Pensando nisso, vou indicar aqui no blog alguns bons livros que venho lendo e que julgo ser importante para todo cristão ler e se aprofundar em assuntos importantes para a fé cristã.

Hoje quero indicar a leitura de um livro indispensável para cristãos pentecostais, principalmente aos que gostam de um bom debate com cristãos cessacionistas. Trata-se da obra “Sob os céus da Escócia” do teólogo Renato Cunha Sobrinho. Graduado em teologia pelo Seminário Teológico Presbiteriano José Manoel da Conceição, uma das escolas das mais tradicionais da comunidade presbiteriana brasileira. Renato Cunha é também pastor da igreja Episcopal do Redentor em Natal/RN.

Em “Sob os céus da Escócia” Renato Cunha cumpre bem a proposta de apresentar como na história dos teólogos reformados da Escócia vários fenômenos espirituais eram “comuns” entre eles. Há um destaque sobre as muitas revelações (comumente chamadas de profecias nos dias de hoje) que diversos teólogos cristãos reformados vivenciaram.

Ele cita diversas fontes históricas, como grandes nomes da teologia reformada tais como: Samuel Rutherfod, John Kinox, Georde Gillespie para comprovar os fatos afirmados. Entre os grandes teólogos citados destaque para João Calvino, teólogo francês que sim, admitia o oficio profético preditivo em seus dias. O próprio Calvino recebeu uma revelação sobre a batalha entre protestantes e Guisianos, grupo partidário católicos do Duque de Guise. Notícia que chegou até Genebra dias depois de Calvino receber tal revelação.

O livro também traz discussões importantes de como a Confissão de Westiminster compreendia as questões do dom de profecia após a igreja primitiva. Vários cessacionistas já debateram o livro em diversos sites e blogs, com algumas críticas à obra do Renato Cunha como carente de evidências mais específicas dos teólogos citados, no entanto, os próprios relatos e comentários da época já apontavam para a mentalidade da época sobre o continuísmo, ficando evidente nos diversos relatos feitos por cristãos, puritanos e/ou teólogos.

Sem dúvida uma grande obra lançada pela CPAD ( já lançada anteriormente pela editora Reflexão) que pode auxiliar em muito aos que desejam conhecer mais sobre a continuidade dos dons espirituais em um contexto mais histórico, e não apenas em debates com cessacionistas e reformados.

Editora: CPAD
1° Edição - 2017
N° de páginas: 240

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Novos Começos

"Eis que faço coisa nova, que está saindo à luz; porventura, não o percebeis?…"
—Isaías 43:19

por Marvin Williams


Novos começos são possíveis. Pergunte a um jovem que passou a fazer parte de uma gangue ainda no Ensino Fundamental.

Ele fugiu quando tinha apenas 12 anos e por três anos esteve perdido nas drogas, participando da gangue. Embora ele tenha deixado a gangue e retornado à sua casa, foi difícil para ele, pois já tinha sido expulso da escola por vender drogas.

Etretanto, quando matriculou-se em uma nova escola para cursar o Ensino Médio, uma professora o inspirou e encorajou a escrever sobre as suas experiências em vez de repeti-las. Ele se comprometeu com esse desafio e agora está experimentando um novo começo.

Deus, por meio do profeta Isaías, também encorajou exilados judeus a pensarem num novo começo. Deus disse: “Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas” (Isaías 43:18).
Ele lhes disse para deixarem de viver lembrando-se da punição que sofreram e até mesmo da demonstração do poder divino quando houve o primeiro êxodo do Egito.

Ele queria que a atenção do povo estivesse focada em Deus, que lhes daria um novo começo, levando-os da Babilônia para casa, em um novo êxodo (v.19).
Com Deus, os novos começos são possíveis em nossos corações. Ele pode nos ajudar a abrir mão do passado e começarmos a nos apegar nele.

Um relacionamento com o Senhor proporciona nova esperança aos que confiam nele.

Deus dá novos começos quando nos aproximamos ainda mais dele.


Fonte: Pão Diário.


terça-feira, 20 de março de 2018

Os Gigantes da Fé e seu Legado para a Igreja - Pr. José Gonçalves Lição 11, 1º Trim/2018 – CPAD

Genesis, o Livro das Origens

Por Pr. Claudionor de Andrade


O Gênesis fascina-me o espírito. Tudo nele é relevante, didático, profundo, belo e devocional. Até as suas genealogias trazem-me preciosas lições. Da criação do Universo à morte de José, percorro um caminho que, apesar das agruras e provas, conduz-me logo ao Criador. Em cada página, encontro um Deus que, não se limitando a criar, deleita-se em revelar-se à criatura.
Neste livro, enterneço-me com os patriarcas. No Crescente Fértil, refaço-lhes as peregrinações desde a imponente Ur à rústica Betel. De suas vitórias, compartilho. Aos seus idílios, assisto. Que outro autor poderia descrever com tanta poesia o encontro de Jacó e Raquel? E a história de José? Não há quem não chore ao ler o drama do escravo hebreu que veio a governar o Império Egípcio.
Em cada capítulo do Gênesis, tenho uma nova experiência com o Deus de Isaque e de Abraão.

Iniciemos, pois, o nosso diálogo com uma literatura alta, rica e artisticamente bem trabalhada. Mas este não é o seu principal mérito. À semelhança dos demais livros da Bíblia Sagrada, o Gênesis é a inspirada, inerrante e infalível Palavra de Deus. Não foi escrito apenas para encantar-nos a estética, mas para encaminhar-nos à ética inigualável e perfeita do Criador.
I. A AUTORIA MOSAICA

O Gênesis foi escrito por um dos homens mais sábios da história. Filho de Anrão e Joquebede, pertencia Moisés à casa de Levi, a mais conservadora das tribos hebreias (Ex 6.20; 32.26-28). Sua biografia é pontilhada por lances dramáticos e inexplicáveis. Ainda recém-nascido, foi preservado do infanticídio desencadeado pelo rei do Egito, visando à eliminação do povo de Israel (Êx 2.1-10). Providencialmente adotado pela filha do Faraó, é levado ao palácio, onde recebe a educação mais esmerada da época (At 7.22).
Homem feito, saiu a ver as agruras de seus irmãos. E, na ânsia por ajudá-los, acaba por matar um egípcio. Vê-se, então, forçado a refugiar-se em Midiã. Nesse diminuto reino localizado ao norte da Arábia, entrega-se ao pastoreio do rebanho de Jetro, seu sogro (Ex 3.1). Ali, solitário e reflexivo, dispõe de espaço e tempo para meditar nos propósitos do Deus de Abraão. Que perguntas avivaram-lhe o espírito? E que indagações fez ao Eterno de Israel? 

Deus utiliza o isolamento de Midiã, para trabalhar-lhe a personalidade. No Egito, entre cativos e exatores, jamais se teria desenvolvido espiritualmente.

Foi em seu exílio, que Moisés inteira-se de uma invenção que revolucionaria a transmissão do conhecimento: o alfabeto. Surgido na região do Sinai, seria logo adotado pela maioria dos povos.  Providencialmente, o Senhor impediu que a sua Palavra fosse escrita em caracteres egípcios, pois tanto o demótico, conhecido pelo povo, como o hieróglifo, dominado apenas pelos sacerdotes, não possuíam a plasticidade e a segurança necessárias para registrar os inícios da História Sagrada.   

Não sabemos em que período de seu ministério, Moisés escreveu o primeiro livro da Bíblia Sagrada. Mas podemos garantir que o Êxodo é uma sequência natural do Gênesis, pois, no original hebraico, ambos os livros acham-se ligados por uma conjunção aditiva.         
II. DATA E LOCAL

Não é tarefa nada fácil precisar a data e o local em que Moisés escreveu o Gênesis. Para não nos perdermos em especulações, algumas absurdas e outras impiamente vazias, adotaremos a posição conservadora por ser a mais segura e racional.

1. Data. É-nos permitido afirmar que o primeiro livro da Bíblia foi redigido entre 1445 e 1405 antes da era cristã, durante a peregrinação de Israel pelo Sinai. Eleger qualquer outra época, como a do pós-exílio babilônico, por exemplo, é atentar contra as evidências da própria Bíblia. Tanto os profetas quanto os apóstolos têm como certa a autoria mosaica de todo o Pentateuco, incluindo o Gênesis.

2. Local. Já que sabemos ter Moisés escrito o Gênesis no século 15 antes de Cristo, concluímos que ele o redigiu no Sinai. Aliás, encontramo-lo em diversas ocasiões, durante a peregrinação de Israel pelo deserto, a registrar as palavras do Senhor (Êx 24.4; Nm 32.2; Dt 31.9). Ao seu dispor, excelente material de escrita. Doutra forma, o livro jamais teria chegado às gerações futuras.     
III. REIVINDICAÇÃO E TEMA

Todos os livros da Bíblia possuem, além do tema central, uma reivindicação específica. Por isso, devemos ler a Palavra de Deus com atenção e cuidado, para não lhe ignorarmos as demandas. 

1. Reivindicação. A principal reivindicação do Gênesis é que creiamos ser Deus o Criador dos céus e da terra. Aliás, é a primeira verdade que nos expõe o autor sagrado (Gn 1.1). Que nos curvemos humildemente, pois, à soberania divina. Ao aceitar semelhante demanda, confessa o salmista Etã: “Teus são os céus, tua, a terra; o mundo e a sua plenitude, tu os fundaste” (Sl 89.11).

Quem lê o Gênesis com devoção e amor, aceita de imediato a exigência divina. Sim, tudo pertence ao Senhor, inclusive você e eu. Aleluia!

2. Tema. O tema do Gênesis faz-se acompanhar de sua reivindicação central: “No princípio, criou Deus os céus e a terra”. Nesse livro, portanto, encontramos as origens dos céus, da terra, do ser humano, das nações e do povo de Israel. Acham-se nele, também, os esboços das doutrinas que professamos. O seu título, a propósito, significa exatamente isso: origem.
IV. OBJETIVOS DO LIVRO

Além de uma reivindicação específica e de um tema central, o Gênesis foi escrito com, pelo menos, dois objetivos: fundamentar teológica e historicamente o êxodo hebreu e responder-nos às grandes perguntas da vida.

1. Fundamentar o êxodo hebreu. Os leitores, ou ouvintes, imediatos do Gênesis foi a geração que o Senhor libertara do cativeiro egípcio. No momento mais crítico de sua história, era-lhes urgente saber três coisas essenciais. Antes de tudo, que o Jeová do Êxodo era o mesmo Elohim do Gênesis. Logo, o Criador dos Céus e da Terra não poderia deixar de apresentar-se como o Redentor de seu povo. Finalmente, o Deus que chamara Abraão a uma nova realidade espiritual, convocava-os, agora, a uma vida de liberdade numa terra boa, ampla e singularmente aprazível. Por isso, o Senhor se apresenta aos filhos de Israel como o El-shaday dos patriarcas (Gn 17.1; Ex 6.3).

O objetivo primacial do Gênesis, portanto, era fundamentar teológica e historicamente os filhos de Israel, a fim de que assumissem a sua identidade como povo de Deus. Eles deveriam saber que a sua liberdade não era fruto de um movimento político, nem de uma convulsão social, mas o cumprimento das alianças que o Senhor estabelecera com Abraão, Isaque e Jacó. Aliás, o próprio José, pouco antes de morrer, profetizara, no Gênesis, o Êxodo: “Eu morro; porém Deus certamente vos visitará e vos fará subir desta terra para a terra que jurou dar a Abraão, a Isaque e a Jacó”. Em seguida, José fez jurar os filhos de Israel, dizendo: “Certamente Deus vos visitará, e fareis transportar os meus ossos daqui” (Gn 50.24,25).

Nas Sagradas Escrituras, todos os atos de Deus são bem fundamentados teológica e historicamente. O que aconteceu no Êxodo alicerça-se no Gênesis. As alianças firmadas neste cumprem-se naquele. O mesmo podemos dizer com respeito a nossa salvação. O que teve início no primeiro livro da Bíblia plenifica-se no último.

2. Responder as grandes perguntas da vida. O Gênesis foi escrito também para responder-nos às grandes perguntas da vida. Em primeiro lugar, todos ansiamos por saber como vieram a existir os Céus e a Terra. A segunda indagação, não menos importante, é acerca da nossa própria origem. Se não obtivermos as respostas certas, deixar-nos-emos aprisionar tanto pelas mitologias antigas como pelas modernas, que nos chegam diariamente travestidas de ciência. 

Adão não tinha qualquer dúvida quanto à criação, pois conhecia pessoalmente o Criador. Mas os seus descendentes, por parte de Caim, logo endeusaram a criatura, permitindo-se arrastar pelo sexo e por atos cada vez mais violentos. Sim, violência e sensualidade, os dois primeiros deuses da humanidade; daí, nasceram todos os ídolos.  

Não demorou muito para que os filhos do próprio Sete caíssem nos mesmos pecados de Caim (Gn 6.1-3). Se não fosse o piedoso Noé, toda a raça humana teria perecido no Dilúvio. 

A era atual em nada difere daquela época, conforme afiança o Senhor Jesus: “Pois assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do Homem. Porquanto, assim como nos dias anteriores ao dilúvio comiam e bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, senão quando veio o dilúvio e os levou a todos, assim será também a vinda do Filho do Homem” (Mt 24.37-39).

Em consequência do pecado, o deus deste século não demorou a cegar e a perverter a mente da humanidade (2 Co 4.4). E, assim, a narrativa que Adão e Noé transmitiram aos seus filhos acabou por degenerar-se em mitologias blasfemas e grosseiras. A família de Sem, através de Abraão, ainda manteria, por alguns séculos, a pureza do criacionismo. Mas, já no tempo do Êxodo, a tradição oral já não era confiável. Por isso, o Senhor convoca Moisés não apenas para libertar Israel do Egito, como também perenizar, através da palavra escrita, a verdade sobre os inícios de todas as coisas.

Tendo em vista a pureza do Gênesis, rejeitamos a hipótese de que o autor sagrado foi buscar rescaldos nas mitologias babilônicas para redigir o primeiro livro da Bíblia. Supervisionado pelo Espírito Santo, selecionou os registros mantidos pelos hebreus, depurando a tradição oral da criação que o seu povo ainda conservava. É claro que, nessa tarefa, ele contou igualmente com a revelação divina. De modo que, hoje, temos um texto confiável, lógico e coerente. Não temos qualquer dúvida quanto à inspiração divina do Gênesis, que compreendeu tanto a iluminação como a supervisão do Espírito Santo. 

Moisés foi chamado por Deus no momento mais crítico da história de Israel, pois Faraó estava prestes a exterminar os hebreus. E, com eles, perder-se-iam a narrativa da criação e os registros genealógicos que nos remetem a Adão e ao próprio Deus (Lc 3,38). Além disso, a linhagem do Messias também seria destruída, tornando inviável o advento de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Não há como mesurar a importância de Moisés na História Sagrada. O seu necrológio, apensado ao Deuteronômio, faz jus à sua biografia: “Nunca mais se levantou em Israel profeta algum como Moisés, com quem o SENHOR houvesse tratado face a face, no tocante a todos os sinais e maravilhas que, por mando do SENHOR, fez na terra do Egito, a Faraó, a todos os seus oficiais e a toda a sua terra; e no tocante a todas as obras de sua poderosa mão e aos grandes e terríveis feitos que operou Moisés à vista de todo o Israel” (Dt 34.10-12). 

Bastava o Gênesis para que Moisés se imortalizasse. Mas a sua obra não parou aí; transcendeu, fazendo-se eterna. Séculos mais tarde, vamos encontrá-lo no Monte da Transfiguração. Ali, juntamente com Elias, conferenciava com o Verbo de Deus acerca do momento mais ingente da História Sagrada: a expiação da humanidade no Calvário. A profecia de Gênesis 3.15 cumpria-se plenamente.   
V. GÊNERO LITERÁRIO

Ao contrário de Homero, legou-nos Moisés uma cosmogonia altamente confiável. Se o primeiro dispôs apenas do engenho humano, o segundo foi assistido pelo Espírito Santo, que o inspirou, dirigindo-o em toda a redação da obra. Na composição do livro de Gênesis, por conseguinte, Deus providenciou todos os detalhes, para que tivéssemos uma obra inerrante e infalível: alfabeto, língua, gênero literário e estilo.    

1. Alfabeto. Conforme já dissemos, o Senhor impediu que os primeiros cinco livros das Escrituras Sagradas fossem escritos nos caracteres egípcios. Se isso tivesse ocorrido, o Pentateuco teria desaparecido já nas décadas seguintes, pois somente a elite cultural egípcia, da qual Moisés fazia parte, era capaz de dominá-los. Além do mais, a escrita ideográfica do Nilo estava fadada a desaparecer. Haja vista que, no período do Novo Testamento, os hieróglifos já haviam sido substituídos, em todo o Egito, pelos alfabetos grego e latino. Dezoito séculos mais tarde, o francês Jean-François Champollion (1790-1832) enfrentaria dificuldades, a fim de resgatar o sentido daqueles signos línguísticos.

Por esse motivo, Deus isolou Moisés por quarenta anos em Midiã, para que o seu servo aprendesse o alfabeto sinaítico. Através dessa invenção maravilhosa, ele teria condições de transmitir às gerações futuras os inícios da História Sagrada. Embora não se saiba quem de fato criou a linguagem alfabética, o certo é que ela veio a ser assimilada rapidamente pelos hebreus, fenícios, gregos e latinos. Destes, veio a ser adotada pela maioria das línguas modernas.     

Durante o cativeiro babilônico, os escribas judeus houveram por bem substituir o alfabeto sinaítico pelo ashurith, conhecido também como quadrático devido à sua forma retangular. E, a partir do século 6º de nossa hera, apareceram os massoretas, cujo principal trabalho foi a vocalização do texto original hebraico, para que este não acabasse por perder a sua pureza fonética.  

2. Língua. Entre os idiomas antigos, tenho para mim que o hebraico era o mais perfeito. Simples e poético, apresenta uma gramática descomplicada e logo assimilável. 

É claro que, no decorrer do Antigo Testamento, os livros do Pentateuco foram submetidos a vários processos editoriais. Mas todas essas intervenções foram orientadas e supervisionadas pelo Espírito Santo, visando preservar a integridade do texto sagrado.

3. Gênero literário. Embora haja poesias e até hinos no Gênesis, o livro não é uma obra poética. Diferentemente de Homero, utiliza Moisés a narrativa histórica para registrar os começos do Céu, da Terra, da humanidade e do povo hebreu.

A História da Criação seria, séculos depois, salmodiada pelos cantores de Israel. Mas, quando da redação do Gênesis, o Senhor levou Moisés a utilizar um gênero literário adequado à historiografia sagrada, realçando a credibilidade do primeiro livro da Bíblia.

4. Estilo. Se o estilo é de fato o homem, em todo o Gênesis vemos a mão de Deus em tudo o que Moisés escreveu. Historiador sagrado, foi belo e poético em cada frase e oração. Até pequenas sentenças, como esta, adquirem beleza e ternura em sua pena: “Haja luz” (Gn 1.3). A História de José é outro exemplo da excelência literária do autor sagrado. Quem consegue lê-la sem lacrimejar?

Enfim, o Gênesis é tão belo e singular que só podia ser divino. Escrito há mais de três mil e quinhentos anos, continua a encantar crianças, adolescentes, adultos e anciãos. O primeiro livro da Bíblia Sagrada, portanto, é uma história real, não uma parábola, nem uma coleção de alegorias, como sugerem os liberais e inimigos da Palavra de Deus. Se o interpretarmos doutra forma, jamais poderemos aceitar, como verdade, a História da Redenção.
  
VI. CONTEÚDO

O Gênesis pode ser dividido em duas grandes seções: a História Primitiva e a História de Israel.

1. A História Primitiva. Conhecida também como História Primeva, a História Primitiva ocupa-se dos primeiros dois milênios da estadia do homem na Terra, abrangendo os primeiros onze capítulos do livro: da Criação à Torre de Babel. 

De forma sintética, mas profundamente clara, a Palavra de Deus mostra como vieram a existir o Céu, a Terra, os animais e o homem. Narra também a ocorrência do Dilúvio e o evento da Torre de Babel, revelando como originou-se a diversidade cultural da humanidade. 

2. A História de Israel. A partir do capítulo 12, tem início a História de Israel. É uma narrativa soteriológica das biografias dos três grandes patriarcas da nação hebreia: Abraão, Isaque e Jacó. O relato é encerrado com a ascensão providencial de José ao governo egípcio.

Nessa seção, Deus estabelece suas alianças com os pais da família hebraica. De um lado, promete-lhes que os protegerá em suas peregrinações até introduzi-los na terra de Canaã. Do outro, os hebreus se comprometem a guardar-lhe os mandamentos e devotar-lhe uma adoração exclusiva e única. Todos fomos chamados a uma vida perfeita diante de El Shaday (Gn 17.1).      
CONCLUSÃO

Como nos sairíamos sem o Gênesis? Ainda estaríamos presos às mitologias babilônicas, indianas e gregas. Sem ele, jamais poderíamos libertar-nos dos mitos pós-modernos, que nos chegam todos os dias como verdade e ciência. Enfim, sem as verdades do Gênesis, jamais teríamos alcançado a liberdade em Cristo, pois a doutrina da salvação tem, no primeiro livro da Bíblia Sagrada, a sua gênese.

Por isso, agradeçamos a Deus por nos haver providenciado uma porção tão indispensável e bela de sua inspirada e inerrante Palavra. Quanto mais o tempo passar, mais constataremos a exatidão da obra que nos legou Moisés.

Leia o Gênesis com a sua família. No culto doméstico, abra a Bíblia neste livro e estude-o metódica e sistematicamente. Assim, você impedirá que os seus pequeninos sejam vítimas dos falsos postulados científicos como a Teoria do Big Bang e o Evolucionismo.


Fonte:  CPAD News